Isolamento pode causar perda cognitiva em idosos; terapeuta dá dicas para estimular o cérebro

Para a OMS (Organização Mundial da Saúde), idoso é aquela pessoa com 60 anos ou mais. Mas, em 2021, ninguém pensa em alguém com essa idade como um vovozinho ou vovozinha que só fica em casa fazendo crochê e cuidando dos netos.

Cada vez mais essas pessoas costumam ser ativas, trabalham, passeiam, namoram, além de cuidarem da aparência e da saúde.

“Quando os idosos praticam atividades divertidas e prazerosas, eles estimulam as atividades cerebrais”, diz Michelle Campos, terapeuta ocupacional e coordenadora do núcleo da terceira idade da Clínica Holiste, em Salvador, na Bahia.

Ter uma vida ativa, tanto fisicamente como socialmente, faz com que o fluxo de sangue no cérebro seja mais efetivo, melhorando as capacidades cognitivas, como atenção, memória, raciocínio e linguagem, explica Campos.

“Diante da variedade e dos desafios que essa rotina promove, o cérebro do idoso é convocado o tempo todo a criar novas conexões entre os neurônios. Isso potencializa a aprendizagem, mantém habilidades e autonomia. Tudo isso é fundamental para a cognição funcionar de forma mais rápida e eficiente.”

No entanto, com o isolamento social provocado pela pandemia da Covid-19, os idosos deixaram de praticar atividades que antes faziam parte da rotina, como frequentar academia, sair para dançar e se encontrar com amigos.

“O problema é que esse isolamento tem consequências para os idosos, pois eles deixam de estimular o cérebro e podem perder parte da capacidade cognitiva. Então é preciso ser criativo para manter a saúde física e mental”, conta Campos.

“Quando há essa quebra de rotina, com a falta de atividades e a ausência de estímulos, o cérebro não é forçado a pensar e a trabalhar. Pode ocorrer um declínio nas funções cognitivas dos idosos, levando a uma dificuldade de raciocínio e problemas de memória, como esquecer senhas ou onde guardou determinado objeto”, afirma.

Por isso, a terapeuta preparou uma lista de atividades que funcionam como exercícios cognitivos nesse período de quarentena. Porém, ela ressalta que todas as tarefas propostas devem levar em consideração as condições físicas, psicológicas e sociais do indivíduo.

Jogos: Oferecer estímulos cognitivos por meio de jogos como quebra-cabeça, baralho, dominó, xadrez, caça-palavras e sudoko são boas opções de passatempo e de estimulação cognitiva.

Leitura e escrita: Se possível e se for do agrado do idoso, atividades de leitura e escrita estimulam o cérebro, a memória e funções motoras importantes.

Nesse sentido, é possível incluir o aprendizado de um novo idioma, um novo curso ou mesmo a troca de mensagens pelo celular com família e amigos.

Artesanato: A prática de tricô, crochê, marcenaria, costura, entre outras atividades artesanais, é grande aliada para uma vida saudável.

A estimulação visual, de memória e tátil proposta pelo artesanato pode ajudar a manter a capacidade intelectual ativa por muito mais tempo.

Atividades físicas: Com autorização médica, atividades físicas também devem ser estimuladas. Uma simples caminhada ou mesmo a dança são importantes para o corpo e a mente. Além disso, após a pandemia, é recomendável estimular atividades externas e sociais, como ir ao supermercado, salão de beleza, shopping, cinema e teatro.

Quando o esquecimento é preocupante?

A terapeuta observa que as funções cognitivas são responsáveis por receber, armazenar e processar as informações. Essas capacidades, como atenção, percepção, memória, orientação e juízo, conferem independência ao idoso para gerir a própria vida e, por isso mesmo, são essenciais para uma velhice saudável e ativa.

Com a idade, algumas pessoas desenvolvem doenças neurodegenerativas ou transtornos psiquiátricos leves, moderados e graves. Nesses casos, o cuidado familiar precisa contar com o auxílio de um profissional de saúde mental para garantir a qualidade de vida. É importante estar atento a alguns sinais que podem indicar diagnósticos mais complexos. Campos lista alguns.

Perda de memória: Esquecimento de palavras, nomes, locais em que deixou determinados objetos, como chave, carteira, ou não lembrar de eventos e situações importantes a curto ou longo prazo.

Mudança de humor: Mudança ou oscilação de comportamento –agitado, agressivo, hostil, desinibido, lentificado, pouco comunicativo.

Desorientação: A desorientação no tempo e espaço é um sinal importante. Entre os sintomas estão não saber o dia, a hora ou local em que se encontra.

Rotina: Problemas ao realizar tarefas diárias habituais, por exemplo, esquecer como fazer uma receita que já é de costume, não conseguir pagar uma conta, ou até mesmo esquecer como se dirige um carro. Atividades que antes eram rotineiras se tornam um desafio.

Mesmo quando há o diagnóstico de que o idoso apresenta comprometimento das funções neurológicas, é possível alcançar uma melhor qualidade de vida com ajuda de exercícios direcionados por profissionais de saúde mental, que podem ser feitos tanto de forma presencial ou virtual.