Série ‘Hotel Cecil’ mostra como os transtornos mentais podem ser traiçoeiros, diz psiquiatra

Este texto fala sobre o desfecho da série “Cena do Crime – Mistério e Morte no Hotel Cecil”. Então, se o leitor não quiser saber como a história termina, é melhor parar por aqui.

‘Hotel Cecil’, que estreou na Netflix neste mês e tem apenas quatro episódios, conta a história de Elisa Lam, uma canadense de 21 anos que, em 2013, viajou sozinha para a Califórnia e desapareceu.

Em busca de pistas que poderiam ajudar a encontrar Elisa, a polícia de Los Angeles decidiu publicar em seu site um vídeo gravado por uma das câmeras de segurança do hotel em que ela estava hospedada.

Com a divulgação das imagens, o caso ganhou ampla repercussão na imprensa, passou a ser debatido nas redes sociais e gerou todos os tipos de especulações e teorias da conspiração imagináveis.

Tudo começa com a péssima reputação do Cecil, hotel onde Elisa estava hospedada quando desapareceu.

Inaugurado na década de 1920, o prédio fica em uma região conhecida como skid row, no centro de Los Angeles, que pode ser comparada à cracolândia de São Paulo.

Com hospedagem barata, o Cecil era frequentado por traficantes e usuários de drogas. Seus quartos já foram cenários de diversos assassinatos, suicídios e mortes por overdose.

Numa tentativa de mudar o público e atrair mais turistas, parte do hotel foi reformada, ganhou uma nova entrada e até outro nome: Stay on Main. Foi num desses andares revitalizados do Cecil que Elisa se hospedou. Apesar da fachada mais moderninha, seus hóspedes dividiam o mesmo prédio e os mesmos elevadores do Cecil.

Como se não bastasse a fama de mal-assombrado do hotel, Elisa apresenta um comportamento estranho nas filmagens divulgadas pela polícia.

Ela entra no elevador –que permanece o tempo todo aberto–, aperta vários botões, sai, olha para os lados, entra de novo e se esconde em um cantinho. Depois sai do elevador novamente, faz gestos com as mãos como se estivesse tocando em algo invisível ou falando com alguém e, por fim, deixa o local seguindo para lado esquerdo do corredor.

As cenas misteriosas levam os internautas ao delírio: Elisa estava fugindo de alguém? Havia um fantasma ali? Será que ela estava sob efeito de drogas?

Dias depois de o vídeo ser divulgado, o corpo de Elisa foi encontrado em uma das caixas d’água do hotel. Mais teorias surgem nas redes sociais. Afinal, aquela garota não poderia ter chegado até o terraço do edifício sozinha.

O tribunal da internet começa então a acusar Pablo Vergara, um cantor mexicano de death metal que usa o nome artístico Morbid, pelo suposto assassinato de Elisa.

Vergara, que dá seu depoimento no documentário, conta que recebeu diversas mensagens de ódio pelas redes sociais. Ele ficou tão depressivo que chegou a tentar o suicídio e passou um tempo internado em uma clínica psiquiátrica.

O músico nunca foi visto como suspeito pela polícia. Ele se hospedou no hotel Cecil, publicou alguns vídeos no seu canal do YouTube, mas isso havia sido um ano antes de Elisa fazer check-in.

Divulgado semanas depois, o laudo do médico legista revolta os investigadores cibernéticos. O resultado apontou que a morte foi acidental. Elisa não foi assassinada nem cometeu suicídio.

Desde o primeiro capítulo fica claro que a canadense era uma garota solitária, gostava de escrever uma espécie de diário no Tumblr, tinha depressão e fazia tratamento medicamentoso para controlar a doença. Mas apenas no último episódio é revelada a gravidade da sua condição mental.

O exame toxicológico mostra que a canadense não usou drogas ilegais nem álcool, mas as dosagens dos medicamentos que ela tomava estavam muito baixas. Ou seja, em algum momento durante a viagem, Elisa decidiu parar de tomar os remédios que ela chamava de “café da manhã dos campeões”, entre eles um moderador de humor e um antipsicótico.

“Costumo dizer que as doenças da mente são traiçoeiras. Primeiro porque demoramos para procurar ajuda achando que é ‘só uma fase’, que logo vai passar e que conseguimos lidar com isso sozinhos. E também porque durante o tratamento, assim que nos sentimos melhor, achamos que não é mais necessário o uso das medicações”, explica a psiquiatra Jéssica Martani.

Elisa sofria de transtorno bipolar do tipo 1, uma doença grave definida por episódios maníacos e de euforia que duram ao menos sete dias, com aumento de energia e de atividade. Alguns pacientes podem apresentar sintomas psicóticos, tais como alucinações ou delírios. Essa fase maníaca é alternada com períodos depressivos, de baixa energia, em que muitas vezes o paciente não consegue realizar atividades simples, como escovar os dentes, tomar banho ou mesmo levantar da cama. No transtorno bipolar do tipo 1, tanto na mania quanto na depressão, os sintomas são intensos.

Além do tipo 1, também existe o transtorno bipolar do tipo 2 –quando há uma alternância entre os episódios de depressão e os de hipomania, que é um estado mais leve de euforia–, o transtorno bipolar não especificado ou misto –quando os sintomas não têm duração ou intensidade suficientes para classificar a doença em um dos dois tipos anteriores– e o transtorno ciclotímico –que é o quadro mais leve, marcado por oscilações crônicas do humor, que podem ocorrer até no mesmo dia

“Alguns detalhes comentados na série nos fazem perceber que o estado emocional de Elisa estava bastante alterado. Em determinado dia, a equipe do hotel a transfere de quarto devido a brigas com outras meninas que estavam no mesmo dormitório”, observa Jéssica.

Enquanto Elisa esteve num quarto compartilhado, ela costumava trancar a porta e pedir senhas para as outras garotas entrarem. Também deixava bilhetes sobre as camas delas dizendo “vá embora”.

O documentário revela que a irmã de Elisa chegou a dizer aos policiais que na casa delas, no Canadá, ela já havia parado de tomar os remédios algumas vezes e apresentado delírios persecutórios, chegando a se esconder debaixo da cama.

Mesmo após o caso ser encerrado, muitos internautas não aceitaram a explicação da polícia. Algumas pessoas chegaram a dizer nas redes sociais que os policiais poderiam estar tentando proteger algum funcionário do hotel, responsável pela morte da jovem.

“A desinformação faz com que grande parte da população minimize o transtorno afetivo bipolar como sendo uma característica da pessoa que está ora feliz, ora triste. Isso faz com que elas não entendam o que é o transtorno, suas crise e a gravidade dessa patologia. Outra questão é o quanto é difícil acreditar e aceitar que nossa própria mente pode agir de forma a nos fazer mal”, afirma a médica.

A psiquiatra conta que, para algumas pessoas, é mais fácil acreditar em teorias da conspiração criadas na internet do que compreender que negligenciar os transtornos mentais pode trazer consequências graves não apenas para o paciente, mas para as pessoas que estão ao seu lado. Muitas vezes a pessoa precisa do apoio da família para tomar os remédios e seguir corretamente o tratamento recomendado pelo médico.

“Acredito que muitas pessoas se identificaram com a Elisa, pois ela de nada difere das jovens de sua idade. Ela estava iniciando sua carreira, estava começando novas experiências, viajando pela primeira vez, não fazia uso de drogas ilegais e, como qualquer um de nós, passava por momentos difíceis. Elisa poderia ser nossa irmã, nossa amiga, poderia ser eu, ser você”, relata Jéssica.

“É difícil aceitar que tudo poderia ser diferente se ela estivesse seguindo corretamente seu tratamento”, conclui.

No final, o documentário sugere o site wannatalkaboutit.com para quem enfrenta algum tipo de transtorno mental, como depressão ou ansiedade, e deseja procurar ajuda.

No Brasil, o canal mais conhecido é o CVV (Centro de Valorização da Vida), fundado em São Paulo, em 1962. O centro presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo e anonimato.

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