Leitores escrevem sobre os desafios de manter a saúde mental na pandemia

“O mundo tá lá. A gente que tem que se cuidar pra poder fazer parte dele”, escreveu a leitora Paula Cunha, 39, de São Paulo (SP). Ela está entre os leitores que enviaram relatos sobre como têm se sentido durante a quarentena provocada pela Covid-19.

Há pouco mais de um ano, em 11 de março de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu classificar a disseminação do coronavírus Sars-CoV-2 como uma pandemia.

No último dia 12, o blog Saúde Mental pediu para os leitores contarem como tinham sido afetados emocionalmente e o que estavam fazendo para superar os desafios durante esse período. Alguns também encaminharam fotos tiradas durante o isolamento social. Leia abaixo os dez depoimentos selecionados.

Adriana Moretta, 56, Rio de Janeiro (RJ)

Sou psicoterapeuta, moro e trabalho no Rio de Janeiro. No início de março de 2020 me mudei e, como atendia em casa, transferi também meu local de trabalho para o novo apartamento. Em poucos dias arrumei tudo e me preparei para recomeçar em novo cenário. Foram apenas 10 dias de atendimento presencial até que fosse decretado o isolamento. Os primeiros dias foram de apreensão: e agora? Os pacientes aceitariam as sessões online? Qual a melhor plataforma a usar? O trabalho a distância seria eficaz?

Em poucas semanas percebemos que estávamos embarcando em uma situação de longo prazo. Minha associação de terapeutas organizou um atendimento gratuito, de emergência. Entrei como voluntária. Passei a trabalhar mais horas do que nunca. Atendi pessoas no Japão, EUA, Portugal e em outras cidades do Brasil. Antigos clientes voltaram à terapia. Muitos novos chegaram. Todos muito angustiados, alguns deprimidos, carentes, solitários, ansiosos.

No meio desse turbilhão, eu mesma voltei a fazer terapia. Como dar conta de tanto sofrimento? Como acolher meus próprios medos e apreensões e manter o equilíbrio para poder apoiar tantas pessoas ao mesmo tempo? Deixei de tirar férias, engatei em um ritmo frenético tentando fazer minha parte em um momento de caos. Peguei Covid-19 do meu marido, que precisou voltar a trabalhar presencialmente. Só tive sintomas leves e não deixei de trabalhar um só dia.

Até que a coluna travou de vez e me obrigou a parar. Tive que repensar o frenesi em que tinha embarcado, na minha ânsia de ajudar. Encerrei o atendimento voluntário. Espacei meus horários. Parei de receber pacientes novos. Fiz RPG [reeducação postural global] e voltei ao pilates via Zoom. Precisei cuidar de mim.

Lembrei da máxima que sempre repito para meus clientes sobre a “máscara de oxigênio de avião”: no início do voo sempre ensinam que é preciso colocar a própria máscara antes de ajudar os outros. Acatei minha própria lição e desacelerei.

Continuo trabalhando muito, mas me cuidando também. Quero chegar viva e inteira ao final desde enorme desafio.

A leitora Adriana Moretta, 56, que mora no Rio de Janeiro (Arquivo Pessoal)
A leitora Adriana Moretta, 56, que mora no Rio de Janeiro (Arquivo Pessoal)

Paula Cunha, 39, São Paulo (SP)

Minha saúde mental nunca foi meu ponto forte. Sou ansiosa e, dependendo da situação, posso ficar superansiosa, angustiada ou chateada mesmo. Mas vinha aguentando bem 2020. A ideia de ficar em casa pra me proteger e proteger os que amo do vírus me deu forças pra passar pelo isolamento. Mesmo quando algumas atividades foram liberadas, continuei em casa com minha irmã e meus cachorros esperando o momento que me sentisse mais segura pra sair.

Minha rotina era simples: acordava, tomava café e começava meu trabalho. Tudo dentro do meu quarto, que é o lugar que me sinto melhor em casa. Durante todo o ano de 2020 passei a maior parte do tempo no ambiente que me sinto melhor porque sabia que isso era importante pra mim. Durante esse ano parei bastante e tentei perceber como me sentia fazendo as coisas. Evitar o estresse e a angústia eram minhas prioridades. Comecei a pedir muito delivery de comida porque a vontade de cozinhar era cada dia menor, mas foi bom porque descobri novos lugares de comida saudável e pude manter minha alimentação certinha, gosto de comer bem. Mas atividade física, não. Deus, como detesto qualquer tipo de ginástica, pedalada, caminhada, alongamento.

Contava isso pros meus médicos (foram muitas consultas online, no começo detestava, mas depois passei a gostar) e as opiniões eram divididas: por que você não vai dar uma caminhada na avenida Sumaré? Eu vim do interior, não consigo me imaginar respirando no meio da poluição dos carros. Outros mais empáticos: você tem que fazer uma atividade que te dê prazer. É isso, o problema é que nenhuma atividade física me traz satisfação, então meu corpo dói por passar muito tempo na mesma posição um dia após o outro.

Também tive que repor vitamina D porque me tornei uma vampira sem a luz do Sol. Em momentos mais tensos tiveram que examinar meu coração porque achei que estava com taquicardia, mas era só ansiedade.

Ser ansioso é ver seu corpo te pregando peças. Pode ser uma doença, um sintoma ou “só” ansiedade, mas como saber? Na dúvida, vou logo investigar o pior. Inúmeras vezes cogitei ter Covid, mas não cheguei a fazer nenhum teste porque os médicos não acharam necessário. “Você nem sai de casa.” “Paula, isso é reação alérgica.” Sofri, mas ter uma doença mental é se acostumar a conviver com o medo.

Meus alívios foram um cachorro bebê que é o mais novo membro da família e me fez ficar bem submersa em suas estripulias. A companhia da minha irmã, que é uma amigona pra todas as horas. Papos online que me davam alívio mas, infelizmente, passava logo. Muito streaming, reality show, pipoca e guaraná (zero) e, claro, fé de que dias melhores viriam. Nas poucas vezes que saí na rua pra ir ao laboratório, ao mercado ou à farmácia, ficava encantada com a natureza: o vento, as flores, as árvores. O mundo tá lá. A gente que tem que se cuidar pra poder fazer parte dele.

Jimmy Astley, 32, Recife (PE)

A primeira vez que ouvi falar de coronavírus foi em fevereiro de 2020. Eu morava em Lima, no Peru, e lembro de comentar com amigos sobre o novo vírus que estava circulando na China como se fosse algo que nunca fosse nos afetar.

Eu tinha uma viagem marcada para Recife, minha cidade natal, para o dia 19 de março. No dia 13, acordei com uma mensagem do meu irmão dizendo que meu pai havia falecido.

Como eu vinha para o Brasil por dois meses e não andava muito bem economicamente, devolveria o meu apartamento e deixaria minhas coisas lá com amigos até a minha volta.

Após o choque da notícia, caiu a ficha de que eu teria que fazer minha mudança naquele dia, e ao mesmo tempo tentar adiantar meu voo para chegar ao enterro do meu pai no dia seguinte.

Pedi ajuda a meus amigos e quinze deles vieram encaixotar toda a minha casa enquanto eu ia para o escritório da companhia aérea, já que era impossível o contato por telefone ou internet. Foi lá que eu escutei o boato de que fechariam as fronteiras. Isso explicava a dificuldade de contato com a empresa e a aglomeração no local. Por sorte, um dos meus irmãos conseguiu acessar o site no fim da tarde e alterar a minha passagem.

No dia seguinte, no cemitério, um parente me cumprimentou com o cotovelo. Achei um grande exagero da parte dele.

Poucos dias depois, todas as fronteiras do mundo fecharam e eu estava de quarentena em um apartamento minúsculo com a minha mãe. Após seis anos morando fora, voltei a um Brasil difícil de reconhecer.

Eu já não estava bem emocionalmente no meu último ano em Lima. Vim ao Brasil para tentar melhorar meu ânimo. De repente me vi tendo que enfrentar a perda do meu pai, o luto da minha mãe, um tremendo choque cultural reverso, as dificuldades do confinamento, o medo e a grande incerteza que a pandemia gerou em todos nós.

Minha irmã percebeu o que estava acontecendo e ofereceu pagar meu tratamento com um psiquiatra. Também comecei a ser acompanhado por um psicólogo e a tomar dois, depois quatro, até seis comprimidos antidepressivos por dia. Tinha pensamentos suicidas quase o tempo inteiro. Eu só não me matei porque pensei que seria demais para a minha mãe e meus irmãos perderem dois seres queridos de uma vez. Semanas depois, era comum ver na TV matérias sobre famílias dizimadas pela Covid. Logo decidi me alienar das notícias para tentar sobreviver.

Segui o tratamento durante todo o ano de 2020. Já não tomo remédios, mas continuo na terapia. Tive a felicidade de adotar um cachorro e hoje moro só com ele. Não voltei para o Peru. Agora que vejo este mês de março ser uma reprise do anterior, estou isolado e com medo. Não quero voltar a ficar tão deprimido como estava há um ano.

A depressão pode ser definida como a perda da esperança. E no mundo de hoje, está bem difícil sonhar com dias melhores.

O leitor Jimmy Astley, 32, morador do Recife (Arquivo Pessoal)
O leitor Jimmy Astley, 32, morador do Recife (Arquivo Pessoal)

Carla Vitor,  49, São Paulo (SP)

No início da pandemia e do confinamento, achei que ia enlouquecer por ter de ficar longe de amigos, trabalho, lugares e atividades que gostava. Ficava revoltada com a situação política do país, o negacionismo, as consequências que começamos a ter com o não cuidado do vírus, só que essa revolta me auxiliou muito, pois passei a ter interesses por assuntos que antes eu não me importava.

Voltei a ter o hábito de leitura, só que para assuntos voltados a política, história do Brasil, economia, desigualdades e com o tempo fui recompondo minha sanidade mental com os novos conhecimentos.

Me adaptei ao home office, às chamadas de vídeo, mantive conversa com amigos, fiz cursos gratuitos em áreas que gosto.

Moro na periferia de São Paulo, na zona leste, na rua de uma comunidade. Minha casa é pequena, um cômodo com banheiro que divido com meu filho, e há outra casa de dois cômodos no quintal, onde moram minha mãe, irmã e cunhado. Porém, por sermos três empregados na família, temos a possibilidade de manter internet, alimentação e algumas regalias que outras pessoas da minha rua não conseguem.

Isto também foi um fator muito grande para que tivesse minha saúde mental regular, era grata por ter a possibilidade de ter entretenimento. Outra questão é o fato de eu ter um quintal onde posso tomar sol e circular sem ficar presa dentro da minha casa.

Só que as dificuldades das pessoas me angustiavam, me entristeciam de maneira profunda. Minhas dores aliviam quando escrevo, mas ultimamente estou com muitas dificuldades até para escrever.

Acredito muito que a proximidade com minha família tem auxiliado nesse processo, ficamos mais unidos e passamos a ter atividades juntos dentro de casa como cozinhar, limpar e conversar.

Me conectei muito aos meus cachorros e o amor deles tem sido essencial neste momento. Nesse último ano um deles partiu devido a idade e eu pude estar próxima.
Apesar de tudo, passei 2020 bem mentalmente.

Desde o inicio de 2021, meu trabalho aumentou muito e tem exigido muito de mim com horas extras. Passei a perceber que meu coração disparava, sentia angustia.
Escrevo isso em 21 de março e, nessas três últimas semanas, a quantidade de pessoas conhecidas infectadas passou a me assustar. O ápice foi quando várias pessoas da minha família por parte de pai ficaram doentes. Nesta semana, minha tia e meu primo morreram.

Meu coração então acelerou, a angustia triplicou, minha respiração encurtou e após um ano de confinamento tive minha primeira crise de ansiedade da vida, foi assustador, estou buscando ajuda profissional e isso meu padrão financeiro não permite muito.

Esse cenário de horror, pior que do início, explodiu dentro de mim e tudo que guardei por um ano veio à tona nesta semana. O que está me sustentando nesses dias é o amor da família e dos amigos e o isolamento das noticias.

Luiz Thadeu Nunes e Silva, 62, São Luís (MA)

Em março de 2020, estava em uma viagem pela Europa quando o mundo tomava conhecimento do flagelo que vinha de Wuhan, na China. Conheço a China, estive muito próximo da província de Hubei, onde fica Wuhan.

Em 2003, após sofrer um grave acidente de carro, toda minha vida mudou. Estava em um táxi no interior do Rio Grande do Norte, numa BR, quando o motorista atendeu o celular, perdeu a direção do carro e batemos de frente com um caminhão. Tive fratura exposta de fêmur e minha vida mudou para sempre. Foram quatro anos preso a leitos hospitalares, 43 cirurgias, cadeira de roda e adaptação às muletas.

Quando aprendi a andar de muletas, meus filhos foram fazer intercâmbio em Dublin, na Irlanda, e me convidaram para visitá-los. “Não tenho segurança de atravessar a estreita rua em frente ao nosso condomínio, imagina atravessar o Atlântico.”

Após muita insistência, embarquei para o Velho Mundo. Nesta viagem pisei, com minhas muletas, em oito países europeus.

Em dez anos visitei 143 países em todos os continentes, e entrei para o “Livro dos Recordes Brasileiros” como o brasileiro com mobilidade reduzida mais viajado do mundo.

Em março de 2020 foi minha última viagem. De lá para cá estou em casa, recluso, viajando no inesgotável baú das memórias, livros e vídeos.

Durante a pandemia comecei a escrever com frequência. Hoje publico crônicas e artigos em jornais de São Luís do Maranhão, Teresina e Natal. Me reinventei.

Faço meditação, que aprendi na Índia e no Nepal para acalmar a mente, convivo com dor, e optei por não tomar fármacos. A meditação é um grande apoio, alivia minha ansiedade e dislexia, ajuda a acalmar minha mente.

Crio três buldogues ingleses, amigos e companheiros, me ajudam a passar o tempo. Tenho oito passagens aéreas internacionais compradas, pagas e mais de uma vez adiadas. A meta é visitar os 193 países. Dentre as viagens, duas são de volta ao mundo.

Meu slogan de vida é “Terra, aproveite enquanto está em cima dela”.

A pandemia do coronavírus me assusta e muito. Perdi amigos e um cunhado, mas procuro me guardar e redobrar as atenções para não fritar os miolos.

Para quem vivia no mundo, aprendi a viver em casa. Vivo tempos sabáticos.

Luiz Thadeu Nunes e Silva, 62, de São Luís, no Maranhão (Arquivo Pessoal)
Luiz Thadeu Nunes e Silva, 62, de São Luís, no Maranhão (Arquivo Pessoal)

Marcelo Rebinski, 50, Curitiba (PR)

Essa pandemia caiu como um verdadeiro tsunami em minha vida. Desde 20 de março de 2020 que minha saúde emocional sofre um reverso dia a dia.

A angustia, a ansiedade, o medo e o pânico tornaram-se uma constante. O forçado isolamento social que priva da rotina diária do trabalho, do contato social e pessoal, para mim, parece ser pior que receber um diagnóstico de uma doença crônica incurável.

Minha saúde emocional nunca foi das melhores. Depressivo e ansioso, sempre precisei da rotina diária. Até mesmo, porque minha profissão de professor favorece e me deixa suscetível a ser ansioso.

A rotina, antes da pandemia, aliviava a minha ansiedade. Apesar da rotina diária ser cansativa, cumprir regras e horários estabelecidos como: sair para trabalhar, ter um horário para almoçar, para voltar para casa, para jantar, era a melhor coisa. Hoje, me encontro tomando medicamentos além do que tomava. Dobrei a dose e mesmo assim não faz efeito.

Essa pandemia não cria somente danos físicos, cria danos  psicológicos irreversíveis. Não durmo e não me alimento como deveria ser. Poucas horas de sono, das quais somente pesadelo, e uma parca alimentação. Tudo para mim virou de cabeça para baixo. Parece que vivo a expressão do quadro “O Grito”, de Edvard Munch. Só solidão, melancolia, ansiedade e medo.

Rafael Santos, 30, São Paulo (SP)

Em 16 de março do ano passado, estava prestes a completar 20 e poucos dias na posição de estagiário de uma grande instituição quando foi decidido que não faríamos expediente presencial. Esse era meu segundo estágio durante o curso. Estava frequentando o antepenúltimo semestre do curso de direito e me preparava para prestar o Exame da Ordem da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) no início do 2º semestre. Minha expectativa, em âmbito pessoal e profissional, era colar grau e terminar o curso habilitado para iniciar minha carreira.

Passados meses e dias que se parecem muito uns aos outros, tudo que estava planejado se desmoronou. Aulas online, parentes falecendo, exames suspensos, amigos e conhecidos adoecendo, rotina de trabalho incômoda pela mudança brusca, rompendo laços com as pessoas que se recusam a reconhecer o óbvio, incertezas com as condições de ingresso no mercado de trabalho (agravadas pelo fato de que “sem a OAB” um bacharel de direito não tem as mesmas possibilidades), distância física de parentes e amigos queridos, frustração com a deterioração do tecido social que nos une enquanto integrantes de uma sociedade (afinal, presidente e ex-presidente debatem o formato da Terra…). Como conversar com quem defenda cloroquina, mas tenha medo de vacina?

Saúde mental é uma preocupação que fica quase escondida entre as prioridades (alguém de nós tem de ter uma prioridade), ali, perdida entre outras que parecem mais urgentes do ponto de vista objetivo. Mas como ter saúde mental quando eu tenho dificuldade de conviver com pessoas que se perderam na inundação causada pelo excesso do fluxo de informações do “zapzap”? O dano psicológico que isso causa é evidente, até pra quem tenta estar bem informado!

Além da perda de pessoas próximas e queridas, o que já é doloroso por si. Ainda mais quando em uma conversa surge o questionamento: “mas será que era Covid-19, mesmo?”. Ouvi essa pergunta em junho de 2020.

Renata Silva, 23, Rio de Janeiro (RJ)

Sem dúvidas, 2020 foi o pior período da minha vida e 2021 também tomará os mesmos rumos. É muito difícil, para mim, que convivo com a ansiedade desde criança, fase esta da minha vida que me traz algumas memórias difíceis, pois era acometida por ataques de pânico, controlar minhas angústias neste momento.

As incertezas que a pandemia trouxe para minha vida, seja na questão de apreensão, se vou conseguir um emprego, pois estou no último período da faculdade ou, ainda, se as pessoas que amo conseguirão sair desse “filme de terror” vivos.

Todo dia acordo asfixiada só de imaginar que a miséria, o desemprego, a doença e a intolerância imperam agora Brasil. Angustia-me ver que muitos parecem estar acomodados com a situação do país, e que, embora os recordes de mortes sendo superados a cada dia, muitos preferem pensar apenas em si e no seu conforto, esquecendo-se das tamanhas dificuldades que aquele outro, seu vizinho, por exemplo, está passando.

Enfim, todos esses pensamentos de desesperança me sufocaram e a ansiedade acabou se transformando em depressão. Só quem já passou por essas situações relacionadas à saúde mental sabe o quão é difícil superar. É sempre uma luta diária.

Após um ano de pandemia, estou tentando aproveitar este instante-já, como bem diz Clarice Lispector. Percebi, no entanto, que não seria possível superar sozinha. Procurei ajuda e atualmente a situação tem se encaminhado um pouco melhor. Uma vez por semana tenho realizado terapia para me auxiliar nesse processo de autoconhecimento. Ainda precisei superar o preconceito de procurar um psiquiatra.

Após quatro meses de tratamento, sinto que tenho resgatado minha pulsão de vida e tenho saído da inércia. Tentando me reinventar. Superei minha timidez e criei meu canal no YouTube sobre livros e, ainda, resolvi me voluntariar no  CVV (Centro de Valorização da Vida) para ajudar aqueles que, às vezes, só querem alguém para escutá-los e compartilhar suas angústias ou até mesmo suas alegrias.

Cada dia para mim está sendo uma superação nesta luta contra ansiedade, depressão e coronavírus.

Silvia Wedekin, 57, Buritama (SP)

Lembro bem do início da pandemia. Estava levando minha filha para viajar no dia 16 de março de 2020, fazer pós em São Paulo. Em Rio Preto, decidimos que ela não iria mais por não ser o melhor momento.

Sou médica, fizemos uma reunião na unidade de saúde para traçarmos metas para gestão da pandemia. Participei ativamente e tive a ingenuidade de achar que talvez, se fizéssemos tudo certo, “passaríamos batido”.

Comecei a fazer videos educativos e acessíveis, colocar no Facebook e no Instagran, orientando a população. Passava nos bancos, lotéricas e muitas vezes gritava da janela do carro ou descia pedindo o distanciamento e uso de máscaras. No começo havia um descrédito da doença e sua gravidade pela população, acreditavam até que seria uma conspiração chinesa.

Com o tempo me tornei referência na cidade, mas muitos me criticavam e me chamavam de “a neurótica da Covid.” Estudava todos os protocolos que saiam, ensinei confecção das máscaras certas, higienização das mãos, participei de palestras em igrejas, tentei o máximo educar a população de maneira clara.

Em junho peguei Covid. Houve crítica como se eu não pudesse pegar justamente por defender as regras, mas trabalhando na saúde é difícil não adoecer.

Passei a ter insônia, angústia, choro fácil, tive dores articulares e leve perda cognitiva. Comecei a escutar o podcast Fator Humano, que me ajudou. Tudo foi ficando mais intenso, passamos a ter mortes de pessoas conhecidas, pois aqui a cidade é pequena.

Em um vídeo, em que eu dizia que o tratamento precoce não funcionava, quase me lincharam pelo Facebook. Apaguei o vídeo e meio que desisti.

Não faltam informações, mas muitos têm preguiça de pensar por si, negam a realidade e não há uma liderança governamental apropriada. Tudo é tão surreal.

Agora posto frases de impacto e tomo antidepressivo. Fui vacinada e me senti um pouco constrangida por esse privilégio. Tenho muita tristeza, tento manter a fé. Para os profissionais de saúde é extremamente difícil. Jamais seremos os mesmos.

Jessica Aquino, 31, Lorena (SP)

Sinceramente, já não sei mais quem sou. Lembro quando, inocentemente, eu achava que o coronavírus era algo impossível de “atravessar milhares de quilômetros” e chegar ao Brasil. Impossível imaginar que chegaria ao estado de São Paulo. Muito mais impossível ainda acreditar que chegaria a Lorena, minha cidade.

Eu nunca havia escutado a palavra “quarentena” e entendido seu real significado. Eu só havia lido essa palavra no antivírus instalado no meu computador e funcionava assim: toda vez que o antivírus encontrava um vírus, removia-o para um lugar chamado “quarentena” e ali ele ficava. Ficava… Ficava… Ficava… Até acontecer sabe-se lá o quê com ele.

E minha vida foi movida para a quarentena e lá tem permanecido… Permanecido… Permanecido… Até acontecer sabe-se lá o quê com ela.

Eu, que já havia passado pela depressão x ansiolíticos entre os anos de 2017 e 2018, confesso que no começo disso tudo fiquei com medo de voltar anos atrás e reviver tudo novamente. Hoje, já não sei mais o que sinto.

Meu humor já não é mais o mesmo há tempos, meus pensamentos tampouco. Já não tenho mais tantos sonhos assim e todas as minhas metas, a cada notícia que vejo ou leio, se vão juntamente com o meu bom ânimo ou a minha fé no futuro.

Confesso que eu tinha feito tantos planos para 2020: planos profissionais, acadêmicos e pessoais nos quais todos eles já não fazem sentido, já não rondam meus pensamentos e meu coração. Planos, sonhos, metas e vontades que já não vivem mais em mim. Meus pensamentos por muitas vezes me machucam, me entristecem, me trazem medo e agonia, me fazendo cair numa espiral de que tudo isso que vivemos nunca terá fim.

A pandemia me fez apática: perdi a sensibilidade de me importar com aquela pessoa que faz tudo errado e adoece; perdi a singeleza em me importar com quem duvida da doença e zomba de quem faz o certo. Pessoas que se aglomeram, se contaminam e adoecem? Poxa, que pena. Ah, e aqui contém muita ironia.

Já teve gente dentro da minha casa me chamando de paranoica e, sinceramente, eu não ligo mais. Hoje, já me encontro afastada de muita, mas muita gente que fazia parte do meu círculo de amizades e que tenho observado ao vivo e pela internet vivendo como se não houvesse pandemia, peguei nojo. Nojo de gente que acha que o lema “só se vive uma vez” é palco para ser idiota, irresponsável e mau caráter.

A pandemia veio e me machucou por dentro. Me fez ter sentimentos que nunca me orgulhei em sentir: raiva, ódio, desprezo, nojo e apatia. Me tornei a pessoa que critica demais, a pessoa que se importa de menos e, às vezes, minhas palavras soam grossas ou violentas. É um sentimento pior do que o outro, mas, do fundo do coração, eu não vou me culpar por sentir. Talvez eu precise senti-los para que eu possa aprender a dominar meus pensamentos, de forma sóbria, lúcida e consciente, mas, vou ser sincera com você: dói, tá?