Neurocientista José Fernandes Vilas escreve sobre a incidência de burnout após um ano de pandemia

Há mais de um ano, em 11 de março de 2020, a OMS (Organização Mundial da Saúde) decidiu classificar a disseminação do coronavírus Sars-CoV-2 como uma pandemia.

Para evitar o contágio da doença que já provocou a morte de mais de 340 mil brasileiros, governantes decidiram adotar medidas restritivas que provocam o isolamento social. Muitas empresas implementaram o sistema de home office e escolas fecharam para aulas presenciais.

Uma pesquisa global liderada pela Universidade Estadual de Ohio (EUA) apontou, em fevereiro, que o Brasil ocupa a liderança no ranking dos índices de ansiedade e depressão durante a pandemia quando é comparado a outras dez nações. No total, 13 mil pessoas foram entrevistadas, 1.500 no país. Aqui, 63% estavam ansiosos e 59%, depressivos.

José Fernandes Vilas, médico, neurocientista e autor do livro “Quando o Sucesso Vira Burnout”, diz que o esgotamento profissional é outra doença que tem crescido durante a pandemia.

No artigo abaixo, ele escreve sobre os fatores que podem provocar o burnout, além de contar sua experiência como profissional da saúde em meio à crise do coronavírus.

Olhar de médico

Após um ano de pandemia, como profissional da saúde, um médico especializado em saúde mental, observo os desdobramentos da pandemia em caos de proporções inenarráveis.

Como exemplo, a última pesquisa da Caixa Econômica Federal do Rio de Janeiro citou que 98% dos profissionais atuantes nessa instituição desenvolveram a síndrome de burnout. A maioria deles relatou que a pandemia foi a grande causadora desse estresse.

Quase 70% dos gestores da instituição relatam esgotamento. Também relatam que a causa do burnout que experimentam é a pandemia. Esse é um estudo recente, feito em março deste ano, divulgado pela própria Caixa. Inclusive, havia 100 mil profissionais atuando na instituição, e hoje esse número é de 80 mil. O estado decidiu abrir espaço para contratação de 20 mil profissionais terceirizados a fim de colaborarem com o funcionamento diário da instituição.

Entre os profissionais da saúde, por sua vez, os números são estarrecedores. Cada artigo que lemos, cada pesquisa que conhecemos, cada situação que vivenciamos é de nos colocar à beira de um colapso emocional.

As pessoas antes acordavam pela manhã, tomavam seu banho, tomavam seu café da manhã e se preparavam para ir ao trabalho. Tinham um deslocamento, o tempo no trânsito, se dedicavam às suas atividades, interagiam com as pessoas, os profissionais que atuavam nessa instituição, e depois tinham seu intervalo, hora do almoço, e depois faziam seu deslocamento para casa.

Em uma pesquisa feita com 8.000 profissionais da Microsoft, o Brasil ficou em primeiro lugar no quesito esgotamento profissional: 44% dos profissionais brasileiros atuando no front, em home office, desenvolveram burnout, colocando o país na frente dos Estados Unidos nessa pesquisa. E uma das coisas que esses profissionais relataram é que um dos aspectos que mais os abalaram é a questão do deslocamento para o trabalho, que era percebido por eles como um fator de proteção.

Outra coisa que demonstrou ser um fator angustiante para eles: não ter um horário para terminar o trabalho. Outra coisa foi não haver mais a compartimentação de trabalho, educação dos filhos, casamento, trabalho domiciliar, tarefas cotidianas em casa e situações assim. Tudo isso se misturou e as pessoas passaram a misturar várias funções em um mesmo local.

Além do desespero de acordar todos os dias e o número de mortes ser crescente. No dia em que escrevo este artigo, recebo a informação de que o Brasil ultrapassou o número de 4.000 mortos por dia.

Como profissional da saúde, observo um sistema entrar em colapso, a população entrar numa situação completamente angustiante, e isso fatalmente afeta o equilíbrio emocional, a saúde dos profissionais da saúde tanto quanto da população.

Uma coisa é acompanhar noticiários, outra coisa são os profissionais da saúde, médicos, enfermeiras, todos num desdobramento diário para conter avanços de uma doença que por si só já é um desafio. É certo que o esgotamento provocado pela síndrome de burnout encontra espaço num contexto assim.

O médico é aquele profissional que costuma perguntar “onde dói?” e iniciar um processo de restabelecimento. Talvez seja um bom momento social para o Brasil se perguntar “onde dói?” na forma como lida com seus profissionais de saúde, e assim pode descobrir que além de qualquer agenda política e econômica está a vida humana. Preservá-la é responsabilidade individual e também é papel do profissional da saúde. Tratar o esgotamento desse profissional com superficialidade é contribuir para a proliferação de outro tipo de vírus: o “vírus do caos”, que coloca vulnerável aquele que está engajado em cuidar dos outros.

Também chegou aquele dia em que eu mesmo estava com os sintomas. Era minha vez: testei positivo para o Covid-19. Agora eu ia experimentar o que significava passar, na pele, o “vale da Covid-19”. Vi por mim mesmo o que o transtorno da doença causou em mim, o que me fez enxergar o mundo de outra maneira.

Todo o estado de angústia, dor, desconforto, receio, tudo é acentuado quando a pessoa é acometida pela doença. É o momento em que ela mais precisa de incentivo, calma, equilíbrio, para manter sob controle o sistema imunológico –e é nesse ponto que a saúde mental e emocional fazem toda a diferença, inclusive para não sobrecarregar o sistema imunológico e dificultar a estabilidade do paciente.

Passar por essa experiência me fez humanizar ainda mais o tratamento com aqueles que estão vulneráveis a ela. É preciso, concluo, uma ação conjunta para que esforços não sejam em vão: é preciso assegurar que níveis psíquicos saudáveis sejam cultivados, contribuindo essencialmente para a recuperação do acometido por Covid-19.

Unir sociedade e esforços governamentais em torno de estabelecer o máximo de soluções é o que constrói as ferramentas de combate à “pandemia do caos”. Para isso já existe vacina: ética, compromisso, responsabilidade. E sem contraindicação.